sexta-feira, 5 de junho de 2009

A possível utopia

A possível utopia
Mario Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP

Não existe paz individual e solitária; não existe um ser humano sem os outros (artigo publicado na Revista Educação, Edição nº 251 Março 2002).
Violência. Não dá para não pensar sobre isso, e, pior, a preocupação vem emergindo nestes anos como uma aparentemente invencível fatalidade. É imprescindível não invisibilizar o assunto no interior das escolas, pois, hoje, violência não é mero "tema transversal". Por isso, há três anos fiz uma reflexão na revista Linha Direta, da qual, pela triste atualidade, recupero agora um trecho.
"A violência é tema aterrorizante em nosso cotidiano; poucos deixam de ter alguma experiência (própria ou próxima) com ela, sejam os assaltos e latrocínios, sejam os seqüestros (relâmpagos ou não) e as ameaças à integridade física e patrimonial, nas casas, escolas e ruas. A mídia se refestela; mesmo levando em conta sua tarefa de informar e alertar, é preciso lembrar que há tempos não havia um assunto tão sedutor. Violência é notícia; má notícia, mas, infelizmente, e, por isso mesmo, mais atraente. A mórbida relação pânico–salvação (fundamento, também, de algumas religiões e vários partidos políticos liberticidas) invadiu as preocupações da população; mostra-se o fato, instaura-se o pânico, anuncia-se a salvação.
Diagnóstico mais comum para a situação? Falta de firmeza e excesso de impunidade. Terapias recomendadas (algumas delirantes, outras demagógicas e, muitas, equivocadas): pena de morte, presídios em profusão, truculência policial, abrigos de ‘segurança máxima’ para menores, diminuição da maioridade penal etc.
Ora, todas as formas de violência mencionadas precisam ser combatidas e extintas; são inaceitáveis e merecem urgência no enfrentamento de suas causas e na prevenção de seus efeitos. Porém, não são as únicas, não estão sozinhas; as demais (e as há em grande quantidade) são obscurecidas por aquelas que vêm tendo destaque exclusivista. Essas outras violências (contra os corpos e as mentes) favorecem (mas não tornam justas) as que estão em evidência."
No mesmo ano, outra reflexão, na revista Família Cristã: "Quem já não disse (às vezes silenciosamente) ou, até, bradou em alta voz: Paz! Eu quero paz; quero ficar em paz. Eu só queria um pouquinho de paz!?
Porém, não existe paz individual e solitária; não existe um humano sem os outros. Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que a minha liberdade acaba quando começa a do outro. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre.
Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre da discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre. Por isso, é preciso que à paz (para que ela se efetive) se acresça a justiça. E o que é justiça? É todos e todas terem paz." Essa utopia ainda vale? Precisa valer.

http://www.facaparte.org.br/new/visualizar_col.asp?id=336&colunista=cortella

Nenhum comentário:

Postar um comentário