sexta-feira, 5 de junho de 2009

A Pátria sangra

A Pátria sangra
Mario Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP

Urge estancar a hemorragia cidadã (artigo publicado pela Revista Educação, edição nº 258, Setembro 2002).
O Brasil é o quinto país do mundo em tamanho, mas o primeiro em terras aproveitáveis; tem 8,5 milhões de km2, apenas 172 milhões de habitantes, 8 mil quilômetros de costa marítima, as duas maiores reservas de biodiversidade do planeta Terra (Amazônia e a mata atlântica), as maiores bacias hidrográficas para a geração de água, transporte e vida, e as maiores reservas de minério ainda não exploradas do planeta. É um país que não tem terremoto forte, não tem vulcão, não tem maremoto, nem geleira, ciclone, furacão, tufão, deserto, nevasca.
Já podeis, da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil?
Desde a Independência formal - e lá se vão 180 anos - podemos considerar que foi atingida a veracidade desse verso de Evaristo da Veiga? Chegou, finalmente, a hora do maternal e sincero sorriso pátrio em uma nação que, por enquanto, é uma das dez economicamente mais ricas deste planeta?
Sorri ou sangra a Pátria quando da divulgação anual do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela ONU e que, agora, entre 173 países, obtivemos o lugar 73 no que se refere à qualidade de vida básica de seus moradores? Sorri ou sangra a Pátria quando percebe que a causa para esse descalabro está apontada no mais recente relatório de concentração da renda (Índice de Gini) emitido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no qual o Brasil só não é derrotado nessa macabra competição pelos economicamente miseráveis países africanos de Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia?
Alegra-se ou chora a gentil mãe quando vê que, considerados apenas os alfabetizados com mais de 15 anos de idade (85,2%), atingimos o degradante patamar de 96º lugar no estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud)? E se ela fica sabendo que quanto à expectativa de vida ficamos no posto 103º, devido, entre outras coisas, às altas taxas de homicídios entre jovens e a uma mortalidade infantil apavorante comparada com países com, por exemplo, a metade da nossa renda per capita (como as Filipinas)? Alegra-se ou chora a gentil mãe quando toma conhecimento do retrato mostrado no mais recente Censo (2000), no qual fica às claras que um terço dos domicílios tem na chefia um analfabeto funcional e que mais de 8 milhões de famílias são dirigidas por alguém que nunca foi à escola ou alfabetizou-se?
Brava gente brasileira. Segue vitimada por inéditos níveis de desemprego; permanece refém de um excludente e oneroso sistema público e privado de saúde; amarga a indigência e a disparidade na previdência social. E resiste. Prossegue em agressiva ausência de condições gerais de habitação e saneamento; continua aguardando a consecução efetiva de uma reforma agrária e urbana abrangente e consistente; padece a truculência da fome e da deficiência alimentar. E resiste.
Brava gente brasileira. Paulo Freire dizia que "não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã".
Cidadania ferida, a Pátria ainda sangra. Mas não para sempre.
http://www.facaparte.org.br/new/visualizar_col.asp?id=337&colunista=cortella

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