A possível utopia
Mario Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP
Não existe paz individual e solitária; não existe um ser humano sem os outros (artigo publicado na Revista Educação, Edição nº 251 Março 2002).
Violência. Não dá para não pensar sobre isso, e, pior, a preocupação vem emergindo nestes anos como uma aparentemente invencível fatalidade. É imprescindível não invisibilizar o assunto no interior das escolas, pois, hoje, violência não é mero "tema transversal". Por isso, há três anos fiz uma reflexão na revista Linha Direta, da qual, pela triste atualidade, recupero agora um trecho.
"A violência é tema aterrorizante em nosso cotidiano; poucos deixam de ter alguma experiência (própria ou próxima) com ela, sejam os assaltos e latrocínios, sejam os seqüestros (relâmpagos ou não) e as ameaças à integridade física e patrimonial, nas casas, escolas e ruas. A mídia se refestela; mesmo levando em conta sua tarefa de informar e alertar, é preciso lembrar que há tempos não havia um assunto tão sedutor. Violência é notícia; má notícia, mas, infelizmente, e, por isso mesmo, mais atraente. A mórbida relação pânico–salvação (fundamento, também, de algumas religiões e vários partidos políticos liberticidas) invadiu as preocupações da população; mostra-se o fato, instaura-se o pânico, anuncia-se a salvação.
Diagnóstico mais comum para a situação? Falta de firmeza e excesso de impunidade. Terapias recomendadas (algumas delirantes, outras demagógicas e, muitas, equivocadas): pena de morte, presídios em profusão, truculência policial, abrigos de ‘segurança máxima’ para menores, diminuição da maioridade penal etc.
Ora, todas as formas de violência mencionadas precisam ser combatidas e extintas; são inaceitáveis e merecem urgência no enfrentamento de suas causas e na prevenção de seus efeitos. Porém, não são as únicas, não estão sozinhas; as demais (e as há em grande quantidade) são obscurecidas por aquelas que vêm tendo destaque exclusivista. Essas outras violências (contra os corpos e as mentes) favorecem (mas não tornam justas) as que estão em evidência."
No mesmo ano, outra reflexão, na revista Família Cristã: "Quem já não disse (às vezes silenciosamente) ou, até, bradou em alta voz: Paz! Eu quero paz; quero ficar em paz. Eu só queria um pouquinho de paz!?
Porém, não existe paz individual e solitária; não existe um humano sem os outros. Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que a minha liberdade acaba quando começa a do outro. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre.
Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre da discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre. Por isso, é preciso que à paz (para que ela se efetive) se acresça a justiça. E o que é justiça? É todos e todas terem paz." Essa utopia ainda vale? Precisa valer.
http://www.facaparte.org.br/new/visualizar_col.asp?id=336&colunista=cortella
sexta-feira, 5 de junho de 2009
A Pátria sangra
A Pátria sangra
Mario Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP
Urge estancar a hemorragia cidadã (artigo publicado pela Revista Educação, edição nº 258, Setembro 2002).
O Brasil é o quinto país do mundo em tamanho, mas o primeiro em terras aproveitáveis; tem 8,5 milhões de km2, apenas 172 milhões de habitantes, 8 mil quilômetros de costa marítima, as duas maiores reservas de biodiversidade do planeta Terra (Amazônia e a mata atlântica), as maiores bacias hidrográficas para a geração de água, transporte e vida, e as maiores reservas de minério ainda não exploradas do planeta. É um país que não tem terremoto forte, não tem vulcão, não tem maremoto, nem geleira, ciclone, furacão, tufão, deserto, nevasca.
Já podeis, da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil?
Desde a Independência formal - e lá se vão 180 anos - podemos considerar que foi atingida a veracidade desse verso de Evaristo da Veiga? Chegou, finalmente, a hora do maternal e sincero sorriso pátrio em uma nação que, por enquanto, é uma das dez economicamente mais ricas deste planeta?
Sorri ou sangra a Pátria quando da divulgação anual do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela ONU e que, agora, entre 173 países, obtivemos o lugar 73 no que se refere à qualidade de vida básica de seus moradores? Sorri ou sangra a Pátria quando percebe que a causa para esse descalabro está apontada no mais recente relatório de concentração da renda (Índice de Gini) emitido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no qual o Brasil só não é derrotado nessa macabra competição pelos economicamente miseráveis países africanos de Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia?
Alegra-se ou chora a gentil mãe quando vê que, considerados apenas os alfabetizados com mais de 15 anos de idade (85,2%), atingimos o degradante patamar de 96º lugar no estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud)? E se ela fica sabendo que quanto à expectativa de vida ficamos no posto 103º, devido, entre outras coisas, às altas taxas de homicídios entre jovens e a uma mortalidade infantil apavorante comparada com países com, por exemplo, a metade da nossa renda per capita (como as Filipinas)? Alegra-se ou chora a gentil mãe quando toma conhecimento do retrato mostrado no mais recente Censo (2000), no qual fica às claras que um terço dos domicílios tem na chefia um analfabeto funcional e que mais de 8 milhões de famílias são dirigidas por alguém que nunca foi à escola ou alfabetizou-se?
Brava gente brasileira. Segue vitimada por inéditos níveis de desemprego; permanece refém de um excludente e oneroso sistema público e privado de saúde; amarga a indigência e a disparidade na previdência social. E resiste. Prossegue em agressiva ausência de condições gerais de habitação e saneamento; continua aguardando a consecução efetiva de uma reforma agrária e urbana abrangente e consistente; padece a truculência da fome e da deficiência alimentar. E resiste.
Brava gente brasileira. Paulo Freire dizia que "não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã".
Cidadania ferida, a Pátria ainda sangra. Mas não para sempre.
http://www.facaparte.org.br/new/visualizar_col.asp?id=337&colunista=cortella
Mario Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP
Urge estancar a hemorragia cidadã (artigo publicado pela Revista Educação, edição nº 258, Setembro 2002).
O Brasil é o quinto país do mundo em tamanho, mas o primeiro em terras aproveitáveis; tem 8,5 milhões de km2, apenas 172 milhões de habitantes, 8 mil quilômetros de costa marítima, as duas maiores reservas de biodiversidade do planeta Terra (Amazônia e a mata atlântica), as maiores bacias hidrográficas para a geração de água, transporte e vida, e as maiores reservas de minério ainda não exploradas do planeta. É um país que não tem terremoto forte, não tem vulcão, não tem maremoto, nem geleira, ciclone, furacão, tufão, deserto, nevasca.
Já podeis, da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil?
Desde a Independência formal - e lá se vão 180 anos - podemos considerar que foi atingida a veracidade desse verso de Evaristo da Veiga? Chegou, finalmente, a hora do maternal e sincero sorriso pátrio em uma nação que, por enquanto, é uma das dez economicamente mais ricas deste planeta?
Sorri ou sangra a Pátria quando da divulgação anual do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela ONU e que, agora, entre 173 países, obtivemos o lugar 73 no que se refere à qualidade de vida básica de seus moradores? Sorri ou sangra a Pátria quando percebe que a causa para esse descalabro está apontada no mais recente relatório de concentração da renda (Índice de Gini) emitido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no qual o Brasil só não é derrotado nessa macabra competição pelos economicamente miseráveis países africanos de Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia?
Alegra-se ou chora a gentil mãe quando vê que, considerados apenas os alfabetizados com mais de 15 anos de idade (85,2%), atingimos o degradante patamar de 96º lugar no estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud)? E se ela fica sabendo que quanto à expectativa de vida ficamos no posto 103º, devido, entre outras coisas, às altas taxas de homicídios entre jovens e a uma mortalidade infantil apavorante comparada com países com, por exemplo, a metade da nossa renda per capita (como as Filipinas)? Alegra-se ou chora a gentil mãe quando toma conhecimento do retrato mostrado no mais recente Censo (2000), no qual fica às claras que um terço dos domicílios tem na chefia um analfabeto funcional e que mais de 8 milhões de famílias são dirigidas por alguém que nunca foi à escola ou alfabetizou-se?
Brava gente brasileira. Segue vitimada por inéditos níveis de desemprego; permanece refém de um excludente e oneroso sistema público e privado de saúde; amarga a indigência e a disparidade na previdência social. E resiste. Prossegue em agressiva ausência de condições gerais de habitação e saneamento; continua aguardando a consecução efetiva de uma reforma agrária e urbana abrangente e consistente; padece a truculência da fome e da deficiência alimentar. E resiste.
Brava gente brasileira. Paulo Freire dizia que "não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã".
Cidadania ferida, a Pátria ainda sangra. Mas não para sempre.
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Prato cheio vida forte
Prof. Adriana Freire
Língua PortuguesaPrato cheio, vida forte
Mario Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP
É tempo de alimentar e sustentar corpos e mentes (artigo publicado pela Revista Educação, edição nº 260, Dezembro de 2002).
Grande e generoso projeto para o futuro próximo: cada pessoa poder ter, ao menos, três pratos de comida por dia em nosso país. É um sonho para fazer virar realidade, colocando a educação como ferramenta de defesa imperativa da idéia e promotora convicta da prática. Para alguns, parece pouco, para muitos será vital, para todos será honroso.
Sempre que posso, reconto uma história real, registrada também na conclusão de meu livro A Escola e o Conhecimento (Cortez, 2002, 166 págs.), e que, agora, mais do que nunca, reproduzo parcialmente para vislumbrar um final diferente. Em meados dos anos 70, dois caciques da nação xavante vieram visitar São Paulo e foram levados para passear. Andaram no metrô, caminharam pela avenida Paulista, visitaram um shopping. Por fim, foram conhecer um dos prédios históricos paulistanos da região central que abriga um imenso mercado municipal (entreposto de frutas, legumes e cereais) com a finalidade de serem surpreendidos com um cenário paradisíaco: alimentos acumulados em grande quantidade. Naquela época, os xavantes quase não usavam dinheiro como mediação para qualidade de vida. O alimento farto representava, para eles, uma riqueza incomensurável. Entraram, deram dois passos no interior do prédio e, subitamente, estancaram, boquiabertos com o cenário: pilhas e pilhas de alfaces, ceno! uras, tomates, laranjas.
Começaram a andar por entre as caixas de alimentos e, de repente, um deles viu algo que não veríamos, pois não chamaria nossa atenção. Ele apontou e disse: "O que ele está fazendo?". "Ele" era um menino de uns 10 anos de idade, que catava no chão verduras e frutas amassadas, estragadas e sujas, e as colocava em um saquinho plástico. A resposta foi a "óbvia": "Ele está pegando comida."
O cacique continuou passeando, calado, provavelmente tentando compreender a resposta dada. Depois de uns 10 minutos, voltou à carga:
Não entendi. Por que o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta coisa boa nas pilhas e caixas?
– Porque para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro.
Insiste o xavante, já irritado, pois está escavando onde a injustiça sangra:
– E por que ele não tem dinheiro?
Réplica enfadonha do civilizado:
– Porque ele é criança.
– E o pai dele tem?
– Não, não tem.
– Então, não entendi de novo. Por que você, que é grande, tem dinheiro e o pai do menino, que também é, não tem?
– Porque aqui é assim.
Os índios pediram para ir embora, pensativos. Não conseguiram compreender essa situação tão "normal". Para que pudessem aceitar mais tranqüilamente o "porque aqui é assim" teriam de ter sido "civilizados" de um modo especial.
Por isso, só quem já teve a vida danificada pela fome entende bem o lugar dessa fantástica e justa urgência: segurança alimentar. É passo essencial para estilhaçar um modelo homicida e conveniente de ser civilizado.
Fonte: http://www.facaparte.org.br/new/visualizar_col.asp?id=430&colunista=cortella
Língua PortuguesaPrato cheio, vida forte
Mario Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP
É tempo de alimentar e sustentar corpos e mentes (artigo publicado pela Revista Educação, edição nº 260, Dezembro de 2002).
Grande e generoso projeto para o futuro próximo: cada pessoa poder ter, ao menos, três pratos de comida por dia em nosso país. É um sonho para fazer virar realidade, colocando a educação como ferramenta de defesa imperativa da idéia e promotora convicta da prática. Para alguns, parece pouco, para muitos será vital, para todos será honroso.
Sempre que posso, reconto uma história real, registrada também na conclusão de meu livro A Escola e o Conhecimento (Cortez, 2002, 166 págs.), e que, agora, mais do que nunca, reproduzo parcialmente para vislumbrar um final diferente. Em meados dos anos 70, dois caciques da nação xavante vieram visitar São Paulo e foram levados para passear. Andaram no metrô, caminharam pela avenida Paulista, visitaram um shopping. Por fim, foram conhecer um dos prédios históricos paulistanos da região central que abriga um imenso mercado municipal (entreposto de frutas, legumes e cereais) com a finalidade de serem surpreendidos com um cenário paradisíaco: alimentos acumulados em grande quantidade. Naquela época, os xavantes quase não usavam dinheiro como mediação para qualidade de vida. O alimento farto representava, para eles, uma riqueza incomensurável. Entraram, deram dois passos no interior do prédio e, subitamente, estancaram, boquiabertos com o cenário: pilhas e pilhas de alfaces, ceno! uras, tomates, laranjas.
Começaram a andar por entre as caixas de alimentos e, de repente, um deles viu algo que não veríamos, pois não chamaria nossa atenção. Ele apontou e disse: "O que ele está fazendo?". "Ele" era um menino de uns 10 anos de idade, que catava no chão verduras e frutas amassadas, estragadas e sujas, e as colocava em um saquinho plástico. A resposta foi a "óbvia": "Ele está pegando comida."
O cacique continuou passeando, calado, provavelmente tentando compreender a resposta dada. Depois de uns 10 minutos, voltou à carga:
Não entendi. Por que o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta coisa boa nas pilhas e caixas?
– Porque para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro.
Insiste o xavante, já irritado, pois está escavando onde a injustiça sangra:
– E por que ele não tem dinheiro?
Réplica enfadonha do civilizado:
– Porque ele é criança.
– E o pai dele tem?
– Não, não tem.
– Então, não entendi de novo. Por que você, que é grande, tem dinheiro e o pai do menino, que também é, não tem?
– Porque aqui é assim.
Os índios pediram para ir embora, pensativos. Não conseguiram compreender essa situação tão "normal". Para que pudessem aceitar mais tranqüilamente o "porque aqui é assim" teriam de ter sido "civilizados" de um modo especial.
Por isso, só quem já teve a vida danificada pela fome entende bem o lugar dessa fantástica e justa urgência: segurança alimentar. É passo essencial para estilhaçar um modelo homicida e conveniente de ser civilizado.
Fonte: http://www.facaparte.org.br/new/visualizar_col.asp?id=430&colunista=cortella
Texto para se tirar proveito
Minha liberdade acaba onde começa a tua?
Leonardo Boff
Muitas vezes escutamos esta frase, tida quase como um princípio. Nunca vi alguém alguém questioná-la. Mas pensando nos pressupostos subjacentes e nas possíveis consequências, devemos questioná-la seriamente. É a típica liberdade propugnada pelo liberalismo como filosofia política.
Com a derrocada do socialismo realmente existente se perderam algumas virtudes que ele, bem ou mal, havia suscitado como o sentido do internacionalismo, a importância da solidariedade e a prevalência do social sobre o individual. Com a ascensão ao poder de Thatcher e de Reagan voltaram furiosamente os ideais liberais e a cultura capitalista: a exaltação do indivíduo, a supremacia da propriedade privada, a democracia delegatícia, por isso reduzida, e a liberdade dos mercados. As consequências são visíveis: atualmente há muito menos solidariedade internacional e preocupação com as mudanças em prol dos pobres do mundo do que antes.
É neste pano de fundo que deve ser entendida a frase "a minha liberdade acaba onde começa a tua". Trata-se de uma compreensão individualista, do eu sozinho, separado da sociedade. É a liberdade do outro e não com o outro. Para que a tua liberdade comece, a minha tem que acabar. Ou para que tu comeces a ser livre, eu devo deixar de sê-lo. Consequentemente, se a liberdade do outro não começa, por qualquer razão que seja, signfica então que a minha liberdade não conhece limites,se expande como quiser porque não encontra a liberdade do outro. Ocupa todos os espaços e inaugura o império do egoismo. A liberdade do outro se transforma em liberdade contra o outro.
Essa compreensão subjaz ao conceito vigente de soberania territorial dos estados nacionais. Até os limites do outro estado, ela é absoluta. Para além desses limites, é inexistente. A consequência é que a solidariedade não tem mais lugar. Não se promove o diálogo, a negociação, buscando convergências e o bem comum supranacional. Por ocasiao da crise do gás entre o Brasil e a Bolívia assistimos a vigência deste conceito de liberdade neoliberal e de soberania individualista, manifestada por muitos. Normalmente quando esse paradigma entra em função, se instaura o conflito para cuja solução se apela à força. A soberania de um esmaga a soberania do outro, sacrificando a liberdade. Foi sabedoria do Presidente Lula não se pautar por esta lógica e não ter desistido, para irritação de gente do velho paradigma da força e do troco, de incansavelmente dialogar e de buscar convergências com o presidente Evo Morales. No que efetivamente foi bem sucedido mostrando que a política do ganha-ganha é possível e preferível à do ganha-perde.
Por isso, esta deve ser a frase correta: a minha liberdade somente começa quando começa também a tua. É o perene legado deixado por Paulo Freire: jamais seremos livres sozinhos; só seremos livres juntos. Minha liberdade cresce na medida em que cresce também a tua e conjuntamente gestamos uma sociedade de cidadãos livres e solidários.
Por detrás desta compreensão da liberdade solidária se encontra o princípio humanista: "faze aos demais o que queres que te façam a ti". Ninguém é uma ilha. Somos seres de convivência. Todos somos pontes que nos ligam uns aos outros. Por isso ninguém é sem os outros e livre dos outros. Todos são chamados a serem livres com os outros e para os outros. Como bem deixou escrito Che Gevara em seu Diário: "somente serei verdadeiramente livre quando o último homem tiver conquistado também a sua liberdade".
Leonardo Boff
Muitas vezes escutamos esta frase, tida quase como um princípio. Nunca vi alguém alguém questioná-la. Mas pensando nos pressupostos subjacentes e nas possíveis consequências, devemos questioná-la seriamente. É a típica liberdade propugnada pelo liberalismo como filosofia política.
Com a derrocada do socialismo realmente existente se perderam algumas virtudes que ele, bem ou mal, havia suscitado como o sentido do internacionalismo, a importância da solidariedade e a prevalência do social sobre o individual. Com a ascensão ao poder de Thatcher e de Reagan voltaram furiosamente os ideais liberais e a cultura capitalista: a exaltação do indivíduo, a supremacia da propriedade privada, a democracia delegatícia, por isso reduzida, e a liberdade dos mercados. As consequências são visíveis: atualmente há muito menos solidariedade internacional e preocupação com as mudanças em prol dos pobres do mundo do que antes.
É neste pano de fundo que deve ser entendida a frase "a minha liberdade acaba onde começa a tua". Trata-se de uma compreensão individualista, do eu sozinho, separado da sociedade. É a liberdade do outro e não com o outro. Para que a tua liberdade comece, a minha tem que acabar. Ou para que tu comeces a ser livre, eu devo deixar de sê-lo. Consequentemente, se a liberdade do outro não começa, por qualquer razão que seja, signfica então que a minha liberdade não conhece limites,se expande como quiser porque não encontra a liberdade do outro. Ocupa todos os espaços e inaugura o império do egoismo. A liberdade do outro se transforma em liberdade contra o outro.
Essa compreensão subjaz ao conceito vigente de soberania territorial dos estados nacionais. Até os limites do outro estado, ela é absoluta. Para além desses limites, é inexistente. A consequência é que a solidariedade não tem mais lugar. Não se promove o diálogo, a negociação, buscando convergências e o bem comum supranacional. Por ocasiao da crise do gás entre o Brasil e a Bolívia assistimos a vigência deste conceito de liberdade neoliberal e de soberania individualista, manifestada por muitos. Normalmente quando esse paradigma entra em função, se instaura o conflito para cuja solução se apela à força. A soberania de um esmaga a soberania do outro, sacrificando a liberdade. Foi sabedoria do Presidente Lula não se pautar por esta lógica e não ter desistido, para irritação de gente do velho paradigma da força e do troco, de incansavelmente dialogar e de buscar convergências com o presidente Evo Morales. No que efetivamente foi bem sucedido mostrando que a política do ganha-ganha é possível e preferível à do ganha-perde.
Por isso, esta deve ser a frase correta: a minha liberdade somente começa quando começa também a tua. É o perene legado deixado por Paulo Freire: jamais seremos livres sozinhos; só seremos livres juntos. Minha liberdade cresce na medida em que cresce também a tua e conjuntamente gestamos uma sociedade de cidadãos livres e solidários.
Por detrás desta compreensão da liberdade solidária se encontra o princípio humanista: "faze aos demais o que queres que te façam a ti". Ninguém é uma ilha. Somos seres de convivência. Todos somos pontes que nos ligam uns aos outros. Por isso ninguém é sem os outros e livre dos outros. Todos são chamados a serem livres com os outros e para os outros. Como bem deixou escrito Che Gevara em seu Diário: "somente serei verdadeiramente livre quando o último homem tiver conquistado também a sua liberdade".
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